A ARTE DE CRIAR JOIAS

por Gabriela Marcon


O uso de adereços sempre esteve intimamente ligado ao homem pela sua profunda necessidade de se adornar. No início da civilização humana, eram amuletos feitos de ossos, sementes, madeira e pedras brutas que simbolizavam saúde, crenças espirituais e formas artísticas de expressão, sem o propósito de valorização do objeto carregado. Já no começo da era cristã, os adornos carregavam uma linguagem simbólica de ensinamentos e sentimentos, muito em função da conotação religiosa.

Até por volta do ano de 1300, a arte da ourivesaria foi uma das mais desenvolvidas por estar ao lado de quem detinha o poder, atendendo aos desejos estéticos da Igreja, da realeza e da nobreza. Foi apenas no século 20 que a joia começou a se popularizar, quando começou a perder o significado puramente político, religioso e econômico para se tornar um adorno que agregava um valor imaterial ao corpo humano: a beleza.


Resultado de uma ideia, de um esboço inicial que passa a ser um desenho e por uma junção de processos de fabricação que envolve metais nobres (ouro, prata e platina) e muitas ferramentas, a arte da ourivesaria se mantém viva, ainda que existam métodos avançados de produção de joias. A trajetória é mais ou menos essa: o designer cria, o ourives faz a peça (em alguns casos, ele mesmo desenha), o cravador monta as gemas na base de metal e a joia, enfim, se materializa. Do desenho à peça acabada, o joalheiro executa praticamente sozinho todas as etapas do processo de fabricação de uma joia, à exceção da cravação, feita por um profissional especializado. “Demoro mais para pensar como vou fazer a peça do que na hora que já estou fabricando, porque quando não estou na oficina projeto a joia na minha cabeça. Cada peça é um desafio”, afirma o ourives Sérgio Girotto, 61 anos de idade e mais de 40 anos dedicados à joalheria em Caxias do Sul.



Fotos: Julio Soares


O processo artesanal de fabricação de uma joia é complexo e delicado. Requer do ourives amplo conhecimento, pois são várias etapas a cumprir, tais como: laminação, fundição do lingote, soldagem à gás, lixamento, polimento e tratamentos químicos e térmicos. Tudo depende das mãos e do correto uso de instrumentos e ferramentas tradicionais da joalheria. A banca ou bancada - como é chamada a mesa de trabalho de um ourives – é cheia de alicates, bigornas, pinças, escovas, fieiras, limas, martelos, ou seja, de fornituras continuamente usadas ao longo da história da ourivesaria, um ofício que Girotto foi assimilando ainda na infância ao observar o trabalho do pai, que foi funcionário da terceira fábrica de joias inaugurada em Guaporé (RS), em 1948. “Depois ele abriu seu próprio negócio, fabricando correntes, pulseiras e se especializando em alianças. Ele chegava a vender de 30 a 40 dúzias de alianças por temporada, o que era uma grande quantidade para a época”, conta o ourives que, assim como o pai, aprendeu a fazer joias na prática. “Vem de família. O curso que fiz foi trabalhando, aprendendo e, principalmente, gostando de fazer, com vontade de ver a peça pronta e o cliente satisfeito. É uma realização pessoal”.


A partir da escolha feita pelo cliente de uma imagem de referência e do material, Girotto faz peças que podem variar de R$100 a R$10 mil, desenhando o esboço num caderno bem simples. Para ele, é nos detalhes que dão forma ao acabamento das peças que está o maior desafio do trabalho de um ourives. Uma profissão antiga, do tempo em que todas as joias eram feitas a mão, mas que supre um desejo de consumo bem atual: o de ter peças personalizadas. Afinal, quem procura um ourives quer uma joia exclusiva.


Representação artística em 3D


Além do processo artesanal da ourivesaria, as joias podem ser feitas por meio da modelagem em cera e da prototipagem. A revista MChic foi até São Paulo (SP) para conversar com Denize Bonotto, especialista em modelagem 3D. Profissional do setor joalheiro há 25 anos, ela constrói desenhos de joias em três dimensões através do software Rhinoceros, que utiliza modelos matemáticos de representação artística.


Para quem é leigo no assunto, é difícil entender como o desenho de uma joia pode ter origem numa tela de computador cheia de linhas, gráficos e números. Ela explica que qualquer modelagem em 3D começa com linhas de construção que, portanto, não têm volume, até se transformar em algo sólido, espaço onde entra o metal. “A partir de uma imagem pré-definida pelo designer, o primeiro passo é delinear o formato da peça, começando pelas linhas, desenhadas sempre ao centro. A função básica do Rhinoceros é transformar o desenho em um volume para a prototipagem da joia”, explica Denize.


O uso de softwares também tem forte ligação com o aspecto humano da criação, já que o profissional que lida com essa técnica precisa estar alinhado ao desejo do cliente e colocá-lo nos elementos que irão compor a peça. Além disso, a prototipagem é muito importante para validar o produto pela possibilidade da visualização do modelo em perspectiva 3D. É como se fosse um teste para ver qual a primeira impressão sobre o produto antes de enviá-lo para a fabricação. Neste ano, um dos trabalhos de Denize foi a modelagem em 3D da linha de joias Picasso, criada pela designer Camille Vedolin.


Fotos: Bruno Liba


Ao contrário de Sérgio Girotto, que faz parte de uma geração que desenvolveu na prática a habilidade de desenhar joias e fabricá-las, Camille buscou na conceituada Panamericana Escola de Arte e Design, em São Paulo (SP) não apenas o desenvolvimento de seu lado criativo, mas uma nova atividade profissional. Ela conta que há três anos, quando mudou-se para a capital paulista, decidiu que iria reinventar-se. Farmacêutica de formação, mergulhou em um curso de design de joias, passando inclusive pela experiência da bancada (mesa de trabalho do ourives) para entender o processo produtivo.


Inspirada na linguagem fotográfica Lightpainting (“pintar com a luz”) - que utiliza fontes de luz em movimento como instrumento primário de criação, produção e transmissão da mensagem -, a designer lançou a primeira coleção de sua marca de joias exclusivas, a Camille Voll, com conceito centrado no minimalismo e na força feminina. “Minha criação não depende de tendências. Posso até incluir referências que estão na moda ou me aproximar de um estilo que está em alta, mas a inspiração é algo muito particular”, revela. Os três pilares da marca de Camille são o movimento (mudanças de parâmetros, saindo do tradicional), o minimalismo (linhas mais lisas e apenas com diamantes) e a plenitude (empoderamento de quem usa).


Alma, coração, corpo e mente


Para que alguém possa encontrar plenitude é preciso viver a sua essência, ir de encontro àquilo que faça sentido e tenha propósito na sua vida. Foi o que fez Camille ao mudar de profissão, descobrindo o gosto em criar. “Pessoas não compram o que você faz. Elas compram o por quê você faz”, ensina o escritor britânico Simon Sinek. Reflexão que se aplica ao universo das joias, que têm na eternidade seu status. Mais do que um adorno, a joia é um reservatório de afeto, memória e devoção.


É muito comum, por exemplo, que as pessoas usem crucifixos, medalhas de figuras religiosas e relicários como símbolos de proteção, peças bastante requisitadas pelos clientes do ourives Sérgio Girotto. Esses elementos estavam presentes em pingentes e anéis de algumas das coleções Primavera-Verão 2019/2020 apresentadas na 69ª Feninjer – Feira Nacional da Indústria de Joias, Relógios e Afins e a mais importante do ramo na América Latina, realizada em São Paulo. Em uma das palestras da feira, o francês Sébastien Liron, especialista em gestão de marca com experiência como gestor de luxo de grandes grifes de joias na França e no Japão, analisou os quatro princípios fundamentais de uma Lovemark, isto é, de uma marca amada pelo consumidor. São eles: a Alma (propósito) – que ela ofereça um significado; o Coração (experiência) – que ela conquiste pela cultura da marca e excelência de serviço; o Corpo (design) – que ela tenha coerência com os processos operacionais e o design de serviço, e a Mente (mistério) – que ela consiga transmitir seus simbolismos.


As marcas e seus designers trilham um caminho que passa pelo entendimento, pela definição e resolução de problemas e pela busca de soluções para as pessoas, tentando alcançar suas expectativas. De acordo com o professor Marcos Vinícius Benedete Netto, dos cursos de Design, Arquitetura e Urbanismo e Engenharia Civil e de Tecnólogos em Design Gráfico, Produto e Moda do Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG), o que traz inovação no mundo do design, hoje, é o uso dos recursos disponíveis aliados à percepção do comportamento da sociedade. “É saber observar as tendências que acontecem num momento propício à aceleração de consumo de um determinado produto e, portanto, são cíclicas, as macrotendências que influenciam a sociedade por mais tempo e os paradigmas, relacionados aos modelos e padrões. O designer precisa entender tudo isso, percebendo o que as pessoas querem e sabendo extrair o melhor para oferecer a elas”, avalia.



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