• Maria Antônia Nery

IMERSO EM POESIA

A escrita é uma arte que existe há muito tempo. Ela é uma parte importante da comunicação da humanidade, e foi capaz de sobreviver durante milênios. Por causa da escrita, hoje sabemos como eram os hábitos e dia a dia de épocas onde não existia a fotografia, podemos reproduzir as músicas que eram tocadas no momento, e até entender a moda e a sociedade da era.

Foto por Ronaldo Bueno/Divulgação.

Escrever é uma das artes que mais envolve paixão, pois na escrita é possível assumir diferentes identidades, as histórias a serem contadas são infinitas, as possibilidades e gêneros são vastos.


Para falar um pouco desta paixão, convidamos o escritor bento gonçalvense, Rodrigo de Marco, para uma entrevista, onde aborda seu livro mais recente "Imerso", e a trajetória da sua escrita e do seu amor pela poesia.


E: Como você escolheu se tornar um escritor? Teve algum motivo especial?

R: Na verdade, eu acho que eu não escolhi. Eu escrevo poesias desde os 15, 16 anos, e quando eu comecei a escrever eu já estava me inclinando para o jornalismo no colégio. Foi um processo natural, na escola eu já sonhava com livros, sabia que era difícil lançar, e as poesias bem inocentes. Tive muito apoio no ensino médio, de professores que me incentivavam a continuar escrevendo, e dizendo que quem sabe um dia eu lançaria meu livro. O incentivo dos professores fez total diferença para que eu continuasse no caminho da escrita. E aí ao natural, fui me tornando escritor, foi um processo bem natural mesmo, porque a poesia sempre esteve em mim e o jornalismo também.


E: Quais são as suas inspirações?

R: Eu lembro da professora Marliva, uma das pessoas mais inspiradoras que passaram na minha vida. Ela sempre disse que tudo que a gente assiste, lê, escuta, tudo pode nos inspirar, e vai nos inspirar e acrescentar nas nossas vidas um dia. Então acho que minhas inspirações são um recorte de tudo que eu vejo, que eu assisto e que leio, sejam filmes, música, literatura.


Tenho um ar para literatura, sempre gostei muito - minha poesia não se parece muito com a dele - mas eu sempre li bastante Mário Quintana na adolescência, admiro muito ele. Tem alguns escritores que me inspiram, mas eu me identifico mais com uma outra linha, Paulo Leminski, que foi um escritor que marcou época, tinha uma escrita mais forte, fala muito dele também, então depende muito do dia. As inspirações vem aos poucos e dependem bastante do dia, mas surgem de filmes, literatura e música, um pouco de tudo.


Eu procuro sempre ser fiel ao que eu escrevo, poesia é assim. Eu pelo menos não consigo sentar em um dia e dizer: "Agora eu vou escrever cinco poesias." Não é como escrever um romance ou uma história fictícia. A poesia ela vem, ela surge, aos poucos. Então é um processo de escrita diferente, tanto é que em Imerso, as poesias são de 2018 até 2020, um processo de dois anos e meio, quase três anos.



E: Como está sendo lidar com a pandemia sendo um escritor? No que isso te afeta?

R: É engraçado, porque quando a pandemia começou eu até já tinha terminado eu acho, as poesias do livro. Em fevereiro do ano passado já estava com o livro finalizado e estava revisando poesias, mas se tu fores ler Imerso, tu vai achar inclusive que eu escrevi na pandemia, porque é um livro que é bem diferente do primeiro, ele é mais intimista, é um pouco sombrio, melancólico eu diria.


É um livro em que eu acabei mergulhando mais em mim mesmo, sabe? E claro, muitos em terceira pessoa, não é só sobre mim que eu escrevo, eu uso muitos personagens também, mas quando a pandemia começou, o processo de Imerso já tinha terminado, claro eu continuei o processo do livro, terminei ele mas tive que ir atrás de uma série de questões sobre como dar uma cara pro livro. Mas a pandemia me afetou drasticamente, me peguei chorando várias vezes ano passado, diversas vezes, foi bem difícil por tudo que foi acontecendo durante o ano, bem complicado. Foi uma ano atípico e não foi nada bom, mas esperamos que este ano seja melhor.


E: O que te levou a escrever o “Imerso”?

R: Como eu disse, 2018 eu escrevi algumas poesias, elas estavam carregadas de muita melancolia, estavam em uma vibe diferente. Aí no início de 2019 tive a ideia de me inscrever no edital do fundo municipal de cultura aqui de Bento Gonçalves, e aí que decidi que manteria a linha do livro, uma linha definida, um livro que abordasse questões referentes a ansiedade, questões pessoais, sobre a passagem da vida, as perdas, a morte, queria um livro nessa linha, que fizesse refletir bastante quem somos e a importância da vida.


Acho que consegui fazer isso no fim das contas. Foi um processo que me agradou bastante.

Foto por Ronaldo Bueno/Divulgação.

E: Você possui algum gênero favorito para escrever?

R: Bem, meu gênero favorito para escrita sem dúvida nenhuma, é a poesia. Gosto muito também de crônicas, contos já fiz alguma coisa.


E: Qual seu maior sonho como escritor? E sua maior conquista até agora?

R: Acho que todo escritor tem sonho de ganhar prêmios sabe, então acho que ser reconhecido. Reconhecido com algum prêmio em específico talvez, mas é difícil dizer porque não tenho muitas pretensões, digamos assim, não fico sonhando demais. É difícil falar, mas acho que com as premiações, e eu gosto muito da ideia de deixar algo. Nós vamos embora, mas as obras vão ficar, o que eu fiz, fica. Então quando penso nisso, as pessoas vão ler o que fiz, o que deixei, isso me deixa bem satisfeito, fico bem feliz com isso, vou continuar sendo lido, o que está no livro vai continuar no livro, ninguém tira.


Para mim, a escrita é um hobbie, uma atividade totalmente alternativa e eu levo para esse lado. É uma realização pessoal imensa.


Sobre a maior conquista até agora, eu acho que foi esse segundo livro. Acho que foi muito importante, sair do primeiro, ter uma segunda obra e diferente. Foi importante ter esse segundo trabalho lançado,


E: Que dica você dá para alguém que quer ser escritor mas não sabe por onde começar?

R: Sobre dicas para quem quer ser escritor, eu acho que a escrita está em todos nós. A pessoa tem que ser autêntica, tem que saber o que ela quer. Se daqui a pouco ela quer mesmo ser escritora ou escritor, quer escrever e não sabe por onde começar, eu indicaria um curso de escrita criativa, buscar algum curso nesse sentido, tem diversos hoje em dia.


Aí ela pode desenvolver melhor a sua escrita. Eu no caso nunca cheguei a fazer um curso de escrita criativa, talvez eu até faça, acho importante, porque a gente acaba desenvolvendo mais a nossa escrita. E eu diria assim, aumentado o leque de possibilidades:


Primeira coisa: a pessoa tem que saber o que ela quer, que linha ela quer seguir e escrever. Ir escrevendo sem pretensões, para ir se descobrindo, porque a pessoa só vai se descobrir se ela escrever. Comigo foi assim em relação a poesia, eu tenho meus cadernos guardados em casa de quando eu estava no colégio. E se ela está com bastante dificuldade, mas ama escrever, eu indicaria com certeza um curso de escrita criativa, isso vai somar demais para a vida do escritor que vai se formando.


E: Suas poesias sempre são muito intensas e íntimas, os versos são baseados em seus sentimentos? Como é colocar um pedaço seu em cada folha?

R: Sabia que a poesia é o gênero que mais acaba despindo o escritor? Ela acaba colocando muito na vidraça, ela expõe demais, tudo que a gente faz nos expõe, todos os nossos trabalhos assim. Mas eu nunca tive esse receio. Eu diria que é um pouco de responsabilidade colocar um pouco de mim em cada verso, em cada folha, porque por mais que alguns poemas eu tente jogar algum disfarce, deixar em terceira pessoa, o autor está ali, e em Imerso ainda mais. O livro está mais maduro, mais reflexivo, mais real.


São feridas que eu decidi abrir, e aos poucos eu vou fechando. A vida é assim, as feridas se abrem, sangram e aos poucos elas vão cicatrizando, "Imerso" é assim mesmo.

Foto por Ronaldo Bueno/Divulgação.

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